Os neurônios que não deveriam se regenerar e trouxeram a visão de volta

Os neurônios que não deveriam se regenerar e trouxeram a visão de volta


Por décadas, os neurocientistas acreditaram que os neurônios não se regeneram após serem danificados ou destruídos. Essa crença moldou a forma como as lesões cerebrais são compreendidas e tratadas. No entanto, as pessoas frequentemente recuperam pelo menos algumas habilidades perdidas após traumas, levantando uma questão importante: se os neurônios não voltam a crescer, como ocorre a recuperação?

Um novo artigo da JNeurosci oferece uma visão sobre esse enigma. Athanasios Alexandris e seus colegas da Universidade Johns Hopkins utilizaram camundongos para investigar o que ocorre dentro do sistema visual após uma lesão cerebral traumática. O sistema visual inclui células nos olhos que transmitem informações ao cérebro, permitindo que animais e humanos vejam. Danos a esse sistema podem interromper a comunicação entre o olho e o cérebro, resultando em problemas de visão.

Células Sobreviventes Reconstruindo Conexões do Olho ao Cérebro

Após a lesão, os pesquisadores monitoraram de perto as conexões entre as células nos olhos e os neurônios no cérebro. Em vez de encontrarem um crescimento extensivo de novas células, observaram algo diferente. As células que sobreviveram à lesão começaram a se adaptar.

Essas células sobreviventes desenvolveram ramificações extras, permitindo que se conectassem a mais neurônios no cérebro do que antes. Esse processo, conhecido como brotação, ajudou a compensar as células que foram perdidas devido à lesão. Com o tempo, o número de conexões entre o olho e o cérebro voltou a níveis semelhantes aos observados antes do acontecimento da lesão.

É importante ressaltar que essas conexões reconstruídas não eram apenas estruturais. Medições da atividade cerebral mostraram que as novas vias estavam funcionando adequadamente e podiam transmitir sinais de forma eficaz. Em termos práticos, isso significa que o sistema visual conseguiu retornar a sua funcionalidade apesar dos danos.

Diferenças de Gênero na Recuperação do Sistema Visual

O estudo também revelou uma diferença significativa entre camundongos machos e fêmeas. Enquanto os machos demonstraram uma recuperação acentuada por meio desse processo de brotação compensatória, as fêmeas apresentaram uma reparação mais lenta ou incompleta. As conexões do olho ao cérebro nas fêmeas não retornaram sempre aos níveis pré-lesão.

De acordo com os autores, essas descobertas indicam um mecanismo de recuperação que opera de forma diferente dependendo do sexo. Como explica Alexandris, “Não esperávamos ver diferenças de sexo, mas isso está alinhado com observações clínicas em humanos. As mulheres experimentam mais sintomas persistentes após uma concussão ou lesão cerebral do que os homens. Compreender o mecanismo por trás da brotação que observamos – e o que atrasa ou impede esse mecanismo nas fêmeas – poderia eventualmente apontar para estratégias que promovam a recuperação de lesões neurais traumáticas ou outras formas de lesão.”

A equipe de pesquisa pretende continuar investigando por que esse processo de reparo difere entre fêmeas e machos. Ao desvendar os fatores biológicos que influenciam a recuperação neural, esperam identificar novas maneiras de melhorar a cura após lesões cerebrais, incluindo concussões e outras formas de trauma.

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