A trajetória do Programa Nacional de Vacinação, que comemora 60 anos neste sábado, foi destacada em uma entrevista à Lusa pela ex-diretora-geral da Saúde Graça Freitas, que assumiu a liderança do PNV ao entrar para a Direção-Geral da Saúde, em 1996, na posição de chefe da Divisão de Doenças Transmissíveis.
“As vacinas foram, de fato, uma descoberta extraordinária para a humanidade”, afirma a especialista em Saúde Pública, ressaltando que, após a provisão de água potável, as vacinas foram um dos principais responsáveis por criar “saúde para todos e prevenir diversas doenças”.
A mortalidade infantil era alarmantemente alta, e havia doenças graves, principalmente na infância, motivando os profissionais a criarem um programa nacional de vacinação.
Entre os pioneiros do PNV, destaca-se Maria Luísa Van Zeller, a primeira mulher a ser diretora-geral da Saúde, “uma política e uma defensora muito significativa da saúde materno-infantil”, que contou com o apoio de médicos como Arnaldo Sampaio.
“Esses pioneiros foram extremamente astutos, pois analisaram profundamente como poderiam implementar um programa acessível a todos, visto que as vacinas já eram administradas, principalmente em consultórios, mas como eles bem afirmaram, não alcançavam toda a população urbana e rural”, compartilhou.
O programa foi idealizado com uma perspectiva de saúde pública, visando proporcionar imunidade tanto individual quanto coletiva.
No entanto, os desafios socioeconômicos da época e a falta de médicos representavam um obstáculo. Para superar isso, foi criado um esquema vacinal estabelecido pela DGS, permitindo que as vacinas fossem administradas por enfermeiras.
“Foi uma iniciativa bastante avançada e inovadora que permitiu o acesso à vacinação gratuita e universal”, elogiou Graça Freitas.
O programa teve início com seis vacinas, incluindo a da poliomielite para paralisia infantil e a vacina contra a varíola, que eram “doenças terríveis que causavam muitas mortes”.
Já em 1965, foi realizada “uma intensa campanha de vacinação” e, em um ano, foram administradas mais de três milhões de doses de vacinas contra a poliomielite a crianças até nove anos em Portugal, marcando o começo do “grande êxito” do PNV.
“Foi um programa que começou de forma impressionante (…) e possibilitou que as pessoas vissem, em apenas um ano, a poliomielite desaparecer em Portugal”, destacou.
Para a médica, foi “um exercício notável” unir ciência à comunicação, com formação e acesso à aceitação da vacinação, resultando em uma adesão à imunização que se mantém até hoje, com mais de 98% das crianças vacinadas no primeiro ano de vida.
“Hoje, os pais que levam seus filhos para vacinar foram todos vacinados. Há uma continuidade e uma participação social no processo de imunização que merece reconhecimento”, enfatizou.
A melhoria se refletiu em todos os indicadores de saúde. “Na década de 60, a expectativa média de vida era de 60 anos. Hoje, ultrapassa os 80”, o que também se deve à vacinação, que erradicou doenças, diminuiu a mortalidade e internações, e evitou sofrimento e sequelas.
Conforme dados do INE, em 1960, Portugal tinha uma taxa de mortalidade infantil de mais de 76 óbitos por mil nascidos vivos, um número que caiu para cerca de três em 2024.
Graça Freitas afirmou que, ao assumir o PNV, percebeu o potencial de expansão e impulsionou a criação de “comissões técnicas de vacinação eficientes”, que possibilitaram a introdução de novas vacinas, atualização de esquemas e fortalecimento da sustentabilidade do programa.
Ela destacou que cada vacina foi rigidamente analisada, levando em conta custo-efetividade e impacto futuro, ressaltando o papel do Infarmed.
Graça Freitas também fez uma homenagem àqueles que viabilizaram o programa: “Devemos uma imensa gratidão aos enfermeiros, que foram fundamentais para garantir o acesso universal à vacinação, assim como às famílias que, geração após geração, continuam confiando neste programa. É uma iniciativa da sociedade para o benefício da sociedade.”
Apesar dos progressos, a médica alertou que a vacinação não pode ser dada como garantida: “As doenças não desapareceram, exceto a varíola. Os vírus continuam circulando em outros países e podem ressurgir, o que torna crucial manter altas taxas de cobertura e a confiança no programa”.
Ao refletir sobre o passado, Graça Freitas declarou que foi “uma honra e um privilégio” fazer parte deste programa, que ela descreveu como “o projeto da sua vida”.
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