Pesquisadores do Sinai Health descobriram um exame de sangue que pode indicar o risco de doença de Crohn anos antes do surgimento dos sintomas. Essa descoberta abre a possibilidade de diagnosticar a condição mais cedo do que nunca e, eventualmente, ajudar médicos a intervir antes que danos permanentes ocorram.
O exame de sangue analisa como o sistema imunológico reage ao flagelina, uma proteína presente em certas bactérias intestinais. Segundo a equipe de pesquisa liderada pelo Dr. Ken Croitoru, cientista clínico do Instituto de Pesquisa Lunenfeld-Tanenbaum no Sinai Health, pessoas que futuramente desenvolvem a doença de Crohn frequentemente demonstram respostas imunológicas elevadas a essa proteína muito antes do aparecimento dos sintomas. A equipe de estudo também contou com o residente em medicina gastrointestinal Dr. Richard Wu e o cientista clínico e gastroenterologista Dr. Sun-Ho Lee.
Os Drs. Croitoru e Lee também são membros do Centro para Doenças Inflamatórias Intestinais (DBI) do Hospital Mount Sinai, um centro de referência internacional dedicado à pesquisa sobre doenças inflamatórias intestinais.
As descobertas foram publicadas no periódico Clinical Gastroenterology and Hepatology e destacam como as interações entre as bactérias intestinais e o sistema imunológico desempenham um papel crucial no desenvolvimento precoce da doença de Crohn.
Uma Doença em Ascensão
A doença de Crohn é um distúrbio inflamatório crônico do trato digestivo que pode causar problemas digestivos persistentes, dor e fadiga. Esses sintomas têm um impacto significativo na vida diária. Desde 1995, as taxas de doença de Crohn em crianças dobraram, e os casos gerais continuam a aumentar. A Crohn’s and Colitis Canada, uma organização sem fins lucrativos dedicada à cura de doenças inflamatórias intestinais, estima que cerca de 470.000 canadenses estarão vivendo com DBI até 2035.
Por que Anticorpos Precoce são Importantes
Detectar anticorpos contra flagelina anos antes dos sintomas aparecerem sugere que essa resposta imunológica pode ser um fator desencadeador da doença, e não apenas uma consequência, afirmou o Dr. Croitoru. Ele acredita que compreender essas mudanças imunes precoces pode levar a novas maneiras de prever quem está em risco, prevenir o desenvolvimento da doença e melhorar os tratamentos.
“Com todas as terapias biológicas avançadas que temos hoje, as respostas dos pacientes são parciais, na melhor das hipóteses. Não conseguimos curar ninguém ainda, e precisamos fazer melhor,” disse o Dr. Croitoru, que detém a Cátedra de Pesquisa do Canadá em Doenças Inflamatórias Intestinais.
Acompanhando o Risco Através do Projeto GEM
O estudo faz parte do Projeto Genético, Ambiental e Microbiano (GEM), um grande esforço internacional liderado pelo Dr. Croitoru. O projeto acompanha mais de 5.000 parentes de primeiro grau saudáveis de pessoas com doença de Crohn. Desde 2008, pesquisadores têm coletado informações genéticas, biológicas e ambientais para entender melhor como a doença se inicia. Até o momento, 130 participantes desenvolveram a doença de Crohn, permitindo que os cientistas examinassem a condição antes que os sintomas surgissem.
Trabalhos anteriores da equipe mostraram que uma resposta imunológica inflamatória dirigida contra as bactérias intestinais pode aparecer muito antes do diagnóstico da doença de Crohn. Em indivíduos saudáveis, as bactérias intestinais geralmente vivem em equilíbrio com o corpo e apoiam a digestão. Em pessoas com a doença de Crohn, o sistema imunológico parece reagir de forma anormal a micróbios que normalmente são benéficos.
Avançando Descobertas Anteriores
Pesquisas anteriores de colaboradores da Universidade do Alabama, lideradas pelo Dr. Charles Elson, resultaram em um teste que detecta anticorpos contra flagelina. Esse trabalho demonstrou que pessoas com a doença de Crohn frequentemente apresentam níveis elevados de anticorpos direcionados à flagelina de bactérias da família Lachnospiraceae.
Os Drs. Croitoru e Lee então questionaram se a mesma resposta imunológica poderia ser encontrada em pessoas saudáveis que estão em maior risco de desenvolver a doença de Crohn.
“Queríamos saber: as pessoas que estão em risco, que estão saudáveis agora, têm esses anticorpos contra flagelina?” disse o Dr. Croitoru. “Nós investigamos, medimos, e sim, de fato, pelo menos algumas delas tinham.”
Resultados do Estudo e Próximos Passos
O estudo acompanhou 381 parentes de primeiro grau de pessoas com doença de Crohn. Durante o período do estudo, 77 participantes desenvolveram a condição. Dentre eles, 28 indivíduos apresentaram níveis elevados de anticorpos, representando mais de um terço dos que adoe ceram. As respostas imunológicas mais pronunciadas foram observadas em irmãos, sublinhando a importância da exposição ambiental compartilhada, conforme demonstrado anteriormente pelo Dr. Croitoru.
Os pesquisadores também confirmaram que essa resposta imunológica precoce ao flagelina de Lachnospiraceae estava associada a inflamação intestinal e problemas com a barreira intestinal, ambas características principais da doença de Crohn. Em média, os participantes foram diagnosticados cerca de dois anos e meio após a coleta de suas amostras de sangue.
“Confirmar nossa resposta imune anterior contra flagelinas bacterianas mostra associações fortes com o risco futuro de Crohn em parentes de primeiro grau saudáveis,” disse o Dr. Lee. “Descobrimos que essa resposta imunológica é impulsionada por um domínio conservado da proteína flagelina. Isso levanta a possibilidade de projetar uma vacina direcionada à flagelina em indivíduos selecionados de alto risco para prevenção da doença. Mais validação e estudos mecanicistas estão em andamento.”







