Um estudo internacional revelou que pacientes nos EUA que sofrem de long COVID relatam níveis muito mais elevados de névoa cerebral e sintomas psicológicos do que os pacientes em países de baixa renda. Os pesquisadores acreditam que essa diferença é impulsionada pela cultura e pelo acesso ao sistema de saúde, e não por fatores biológicos — sugerindo que milhões em todo o mundo podem estar enfrentando dificuldades de forma invisível.
- Uma grande pesquisa envolvendo mais de 3.100 pessoas é a primeira a comparar diretamente os sintomas neurológicos do long COVID em vários continentes
- Névoa cerebral foi relatada por 86% dos pacientes não hospitalizados nos EUA, enquanto apenas 15% dos pacientes na Índia relataram o mesmo
- Os pesquisadores descobriram que os padrões de sintomas do long COVID estavam mais intimamente relacionados ao nível de renda do que à localização geográfica
- As diferenças marcantes são provavelmente impulsionadas pela cultura e pelo acesso a serviços de saúde, e não por variantes do vírus
Diferenças nos Sintomas Neurológicos do Long COVID Entre Países
Pessoas com long COVID nos Estados Unidos relatam taxas muito maiores de névoa cerebral, depressão e problemas cognitivos do que pacientes em países como Índia e Nigéria, segundo um estudo internacional abrangente realizado pela Northwestern Medicine.
Os pesquisadores alertam que essas diferenças não significam necessariamente que os americanos experimentem uma doença mais grave. Em vez disso, o maior ônus de sintomas relatado nos EUA pode refletir um melhor acesso ao cuidado neurológico e de saúde mental, bem como uma menor estigmatização em discutir sintomas cognitivos e emocionais.
Primeira Comparação Continetal dos Sintomas Neurológicos do Long COVID
A pesquisa representa o primeiro estudo a comparar diretamente os sintomas neurológicos do long COVID entre continentes. Cientistas acompanharam mais de 3.100 adultos com long COVID que foram avaliados em centros médicos acadêmicos em Chicago; Medellín, Colômbia; Lagos, Nigéria; e Jaipur, Índia.
A maioria dos participantes não foi hospitalizada durante suas infecções iniciais por COVID. Dentro desse grupo, 86% dos pacientes nos EUA relataram ter experimentado névoa cerebral. Em comparação, a névoa cerebral foi relatada por 63% dos pacientes na Nigéria, 62% na Colômbia, e apenas 15% na Índia.
Os sintomas de saúde mental apresentaram um padrão semelhante. Quase 75% dos pacientes não hospitalizados nos EUA relataram depressão ou ansiedade. Na Colômbia, essa cifra caiu para cerca de 40%, enquanto menos de 20% dos pacientes na Nigéria e na Índia relataram dificuldades semelhantes.
A Influência da Cultura na Reportagem de Sintomas
“É culturalmente aceito nos EUA e na Colômbia discutir questões de saúde mental e cognitivas, enquanto isso não ocorre na Nigéria e na Índia,” afirmou o Dr. Igor Koralnik, autor sênior do estudo e chefe de doença neuroinfecciosa e neurologia global na Northwestern University Feinberg School of Medicine.
“A negação cultural dos sintomas de transtorno de humor, juntamente com uma combinação de estigmas, equívocos, religiosidade, sistemas de crença e falta de conhecimento em saúde podem contribuir para a relatoria tendenciosa. Isso pode ser agravado pela escassez de provedores de saúde mental e pelas opções de tratamento percebidas nesses países.”
O estudo foi publicado hoje (28 de janeiro) na Frontiers in Human Neuroscience.
Principais Descobertas Neurológicas em Todas as Regiões
Em todos os países estudados, os sintomas neurológicos mais frequentemente relatados incluíam névoa cerebral, fadiga, mialgia (dor muscular), cefaleia, tontura e distúrbios sensoriais (como dormência ou formigamento).
Os problemas relacionados ao sono também variaram muito. Quase 60% dos pacientes não hospitalizados nos EUA relataram insônia, em comparação a cerca de um terço ou menos dos pacientes na Colômbia, Nigéria e Índia.
Quando os pesquisadores analisaram os padrões de sintomas estatisticamente, eles encontraram uma clara divisão entre países de alta e média-alta renda, como EUA e Colômbia, e países de média-baixa renda, como Nigéria e Índia.
Como o Estudo Foi Realizado
O estudo observacional inscreveu adultos com sintomas neurológicos persistentes após infecção por COVID-19 entre 2020 e 2025. Os participantes foram recrutados de quatro centros médicos acadêmicos e incluíram tanto pacientes hospitalizados quanto não hospitalizados.
Os sintomas foram avaliados por meio de avaliações neurológicas, cognitivas e de qualidade de vida padronizadas disponíveis em cada local, permitindo que os pesquisadores comparassem os resultados entre as regiões.
Por Que o Long COVID Continua Sendo uma Preocupação Global
O long COVID afeta milhões de pessoas em todo o mundo e é caracterizado por sintomas que persistem por semanas ou até anos após uma infecção inicial por COVID. Estima-se que 10-30% dos adultos que contraem COVID desenvolvam sintomas duradouros, sendo questões cognitivas e neurológicas algumas das mais disruptivas.
Como os autores escrevem, o long COVID “afeta jovens e adultos de meia-idade em seu auge, causando um impacto significativo na força de trabalho, produtividade e inovação em todo o mundo.”
Neste estudo, os pacientes nos EUA relataram consistentemente o maior ônus neurológico e psicológico, o que “afetou sua qualidade de vida e capacidade de trabalhar,” de acordo com Koralnik, que também atua como co-diretor do Comprehensive COVID Center na Northwestern Medicine e lidera o programa de neurologia global no Havey Institute for Global Health na Feinberg.
Implicações das Descobertas para o Futuro
Os pesquisadores afirmam que seus resultados ressaltam a importância de ferramentas de triagem e abordagens de diagnóstico culturalmente sensíveis para o long COVID. Eles também destacam a necessidade de sistemas de saúde que possam apoiar o cuidado a longo prazo e o acompanhamento.
Com base nessas descobertas, Koralnik e seus colaboradores internacionais estão atualmente testando tratamentos de reabilitação cognitiva para a névoa cerebral do long COVID na Colômbia e na Nigéria. Esses estudos utilizam os mesmos protocolos de tratamento desenvolvidos para pacientes no Shirley Ryan AbilityLab em Chicago.
O estudo é intitulado “Uma análise comparativa entre continentes das manifestações neurológicas do Long COVID.”



