“É uma representação do autoritarismo do atual regime. Portanto, não é uma surpresa”, afirmou Sílvia Roque, mencionando que “jornalistas guineenses já passaram por torturas, desaparecimentos e há um controle rígido da informação”, em declarações à agência Lusa.
A professora de Relações Internacionais da UÉ e pesquisadora no Centro de Investigação em Ciência Política discorreu sobre o tema em Évora, após a conferência “Das lutas anticoloniais às lutas do cotidiano: os espaços das mulheres nos 50 anos de independência”.
No dia 15 de agosto, o Governo da Guiné anunciou a expulsão das delegações da agência Lusa, da RTP e da RDP, informando que, a partir daquele momento, suas transmissões estariam suspensas, sem explicações para tal decisão.
Em suas declarações à Lusa, Sílvia Roque ressaltou que essa expulsão revela que “o regime autoritário” do Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, “também busca outros aliados que não sejam Portugal”.
“Ele não está particularmente preocupado em manter uma relação específica [com Portugal] ou pode não se importar, porque tem, potencialmente, laços mais vantajosos”, acrescentou, reconhecendo possíveis aproximações com a Rússia e com países árabes e muçulmanos.
Questionada sobre a nomeação de Braima Camará para o cargo de primeiro-ministro, alguém que anteriormente desafiava o regime de Umaro Sissoco Embaló, a especialista em Estudos Africanos destacou a “constante reconfiguração de alianças” no país.
“A trajetória política da Guiné-Bissau é marcada por divisões frequentes e reordenações de alianças. Assim, uma pessoa que hoje é vista como inimiga política, amanhã pode se tornar uma aliada, servindo como um meio de controlar a dissidência”, argumentou.
Para esta acadêmica, a escolha de um político crítico do regime para um cargo significativo no Governo “é uma estratégia clássica de absorção de opositores para eliminá-los e, de certa forma, para extinguir as divergências”.
No que se refere às próximas eleições gerais, presidenciais e legislativas programadas para 23 de novembro, Sílvia Roque destacou que “muitos ativistas e cidadãos temem que nem mesmo aconteçam, dada a existência desse regime autoritário”.
“Apesar da crescente contestação, especialmente entre os jovens nas áreas urbanas, como em Bissau, parece-me também que Sissoco conseguiu criar uma base de apoio sólida, inclusive por meio de laços étnicos e religiosos”, enfatizou.
Portanto, caso as eleições ocorram, a especialista considerou que Umaro Sissoco Embaló “pode, de fato, formar uma maioria por meio dessas alianças”.
Leia Também: A expulsão da Lusa e RTP da Guiné-Bissau foi “totalmente injustificada”



