Cientistas desenvolveram compostos experimentais que estimulam as mitocôndrias dentro das células a utilizarem mais energia e queimarem calorias adicionais. Essa pesquisa inicial sugere uma nova abordagem para o tratamento da obesidade, ao mesmo tempo que favorece uma melhor saúde metabólica.
A obesidade afeta pessoas em todo o mundo e aumenta o risco de condições graves, como diabetes e câncer. Muitos medicamentos para perda de peso disponíveis atualmente exigem injeções e podem levar a efeitos colaterais indesejados. Portanto, um método mais seguro para aumentar a queima de calorias poderia ter grandes benefícios para a saúde pública.
A pesquisa foi liderada pelo professor associado Tristan Rawling da Universidade de Tecnologia de Sydney (UTS) e foi recentemente publicada na revista Chemical Science, o principal periódico da Sociedade Real de Química do Reino Unido. O estudo também foi reconhecido como uma “escolha da semana”.
Como Funcionam os Desacopladores Mitocondriais
A equipe de pesquisa, que incluiu cientistas da UTS e da Universidade Memorial de Newfoundland no Canadá, focou em compostos conhecidos como “desacopladores mitocondriais”. Essas moléculas fazem com que as células utilizem o combustível de maneira menos eficiente, liberando parte da energia na forma de calor em vez de convertê-la em energia utilizável.
“As mitocôndrias são frequentemente chamadas de usinas de energia da célula. Elas transformam o alimento que você consome em energia química, chamada ATP ou adenosina trifosfato. Os desacopladores mitocondriais interrompem esse processo, fazendo com que as células consumam mais gordura para atender suas necessidades energéticas,” afirmou o professor associado Rawling.
Ele comparou o processo a um sistema hidrelétrico. “Foi descrito como um pouco semelhante a uma represa hidrelétrica. Normalmente, a água da represa flui pelas turbinas para gerar eletricidade. Os desacopladores agem como um vazamento na represa, permitindo que parte dessa energia passe pelas turbinas, de modo que se perca como calor, em vez de produzir energia útil.”
Um Histórico Perigoso de Químicos para Perda de Peso
Substâncias que interferem na produção de energia mitocondrial foram identificadas pela primeira vez há cerca de um século. No entanto, as versões iniciais eram extremamente perigosas e causavam superaquecimento severo, que poderia ser fatal.
“Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhadores de munições na França perderam peso, tiveram altas temperaturas e alguns morreram. Cientistas descobriram que isso foi causado por um produto químico utilizado na fábrica, chamado 2,4-Dinitrofenol ou DNP,” disse o professor associado Rawling.
“O DNP interrompe a produção de energia mitocondrial e aumenta o metabolismo. Foi comercializado brevemente na década de 1930 como um dos primeiros medicamentos para perda de peso. Era extraordinariamente eficaz, mas acabou sendo banido devido aos seus efeitos tóxicos severos. A dose necessária para perda de peso e a dose letal estão perigosamente próximas,” ele afirmou.
Desenvolvendo Desacopladores Leves e Mais Seguros
No novo estudo, os pesquisadores buscaram superar esses riscos criando versões mais seguras conhecidas como “desacopladores mitocondriais suaves”. Eles modificaram cuidadosamente a estrutura química das moléculas experimentais, permitindo controlar a intensidade com que os compostos aumentavam o consumo de energia dentro das células.
Alguns desses medicamentos experimentais aumentaram com sucesso a atividade mitocondrial sem danificar as células ou interferir na produção de ATP. Outros se comportaram de forma mais semelhante aos compostos tóxicos mais antigos, produzindo níveis perigosos de desacoplamento.
Ao comparar esses resultados, os pesquisadores puderam identificar por que as moléculas mais seguras agiam de maneira diferente. Os desacopladores mitocondriais suaves desaceleram o processo a um nível que as células podem tolerar, reduzindo o risco de efeitos colaterais prejudiciais.
Benefícios Potenciais Além da Perda de Peso
Os desacopladores mitocondriais suaves também parecem reduzir o estresse oxidativo dentro das células. Essa redução poderia apoiar um metabolismo mais saudável, retardar certos processos relacionados ao envelhecimento e ajudar a proteger contra condições neurodegenerativas como a demência.
Embora a pesquisa ainda esteja em estágios iniciais, os achados oferecem um roteiro para desenvolver uma nova geração de medicamentos. Esses tratamentos futuros poderiam aproveitar as vantagens do desacoplamento mitocondrial leve, evitando os perigos que atormentaram abordagens anteriores.







