Antiguoko atletas

Antiguoko: uma fábula de génios no País Basco enfrentando o modernismo do futebol

O universo do futebol vai muito além das transmissões televisivas. Este esporte, que transcende fronteiras, é praticado e venerado ao redor do mundo, de Lisboa a São Paulo, passando por Riade até Tóquio, tornando-se um verdadeiro fenômeno global. O futebol tem raízes nas massas, e ao longo do último século, evoluiu como poucas outras atividades, mesmo diante de obstáculos significativos.

Poucas coisas conseguem alegrar um jovem como uma bola de futebol. Quando indagamos a crianças sobre seus sonhos de futuro, muitos revelam o desejo de se tornarem jogadores profissionais. Essa aspiração é válida e, ao contrário de muitos esportes, o futebol é acessível a todos. Há milhares de clubes de portas abertas para aqueles que aspiram a ser as estrelas do futuro, mesmo que na atualidade sejam apenas atletas em formação.

Existem instituições em cidades, vilas e até mesmo em pequenas localidades, unidas por um objetivo: vencer. No entanto, cada uma possui suas particularidades, o que torna cada clube especial aos olhos de suas comunidades, mesmo que não conquistem os três pontos nos finais de semana.

Em Antiguo, um dos bairros mais antigos de San Sebastián, esse orgulho é palpável, especialmente entre os jovens que se dedicam a treinar. Localizado perto da cidade protagonista da região de Guipúzcoa, este lugar vibra com vida, equilibrando tradição e modernidade. O futebol não poderia ficar de fora deste cenário. Em 1982, depois do fim do Antiguoko CF, nasceu o Antiguoko KE (em basco: De Antiguo), uma instituição que representa a rica história dos últimos 40 anos do País Basco. O lema que a define, “Sim estou louco, sou do Antiguoko”, não é apenas uma rima, mas uma forma de viver. Roberto Montiel, vice-presidente do clube, expõe a profundidade dessa frase:

“Temos esta paixão pelo futebol, essa vontade de competir, de ensinar a competir, geração após geração. Tivemos a sorte de coincidir com vários jogadores que chegaram à elite. Somos um dos clubes amadores da Espanha com maior número de jogadores que se destacaram no futebol profissional.”

No bairro de Antiguo, são os pequenos futebolistas que encantam o público. O Antiguoko é uma instituição totalmente dedicada à formação, tanto masculina quanto feminina. Diariamente, 65 colaboradores se esforçam para transmitir valores positivos a jovens que, assim como atletas, também estão em desenvolvimento pessoal. A instituição desempenha um papel fundamental no crescimento de centenas de pessoas, garantindo que cada uma tenha um futuro, dentro ou fora do futebol.

O que torna o Antiguoko ainda mais especial é seu caráter amador, que não impede a inserção de jovens promessas em equipes profissionais, concentrando-se no futebol sênior. Mesmo com a saída de atletas para o Berio, a equipe mantém sua competitividade. Roberto Montiel fala sobre isso:

“No Antiguoko ensinamos a competir desde pequenos. Temos esse DNA, contagiamos os jogadores. Os clubes profissionais ficam admirados ao enfrentar nossa equipe. O nível que temos aqui é único. Recentemente, jogamos contra o Osasuna na categoria máxima dos juvenis e vencemos por 4-0. Na Divisão de Honra… o nível mais alto.”

O futebol de formação tem passado por diversas mudanças devido à evolução do esporte. Atualmente, equipes dominantes possuem olheiros em todo o mundo, avaliando talentos em todos os níveis. É comum que clubes da La Liga conheçam jovens promessas em academias como Antiguoko ou Danok Bat, e ainda mais fácil seduzir esses jovens, oferecendo condições elaboradas e salários atraentes. É mais vantajoso adquirir um atleta quando seu custo ainda é baixo, em vez de esperar anos e pagá-lo mais caro, mesmo que com mais experiência.

O desafio do Antiguoko, no entanto, é significativo. Ele se encontra em uma região repleta de equipes que também olham atentamente para a formação de novos talentos. Montiel aponta que o “gene basco é especial”, ressaltando a alta competitividade presente em todos os escalões.

Quando um grande clube se aproxima, é difícil resistir. Apesar disso, o Antiguoko prioriza o futuro dos seus atletas, prevenindo erros de outros no passado:

“É impossível mantê-los hoje em dia. O que buscamos é que qualquer jogador do Antiguoko consiga ir para um clube profissional, tornando o contrato deles o mais seguro possível. No ano passado, dois jogadores nascidos em 2014 conseguiram contratos altos com a Real Sociedad. O Athletic também estava interessado.”

O Antiguoko se empenha na preservação dos direitos dos jovens jogadores. Mesmo que o atleta deixe um ambiente conhecido, ele se transfere para outra instituição com a segurança de que terá um futuro garantido à sua disposição, dependendo apenas de seu desenvolvimento e da transição para o futebol sênior.

Roberto Montiel reflete sobre a relação entre a formação e a competição no mundo do futebol:

“Quando os jogadores são bons, atuando como pivôs como Arteta, Xabi e Guardiola, são praticamente treinadores em campo. Desde cedo, se poderia ver que eles continuariam como treinadores. Iraola me surpreendeu. Ele encerrou sua carreira nos EUA e começou a treinar aqui. No entanto, quando quis renovar, tinha outros planos (risos). Mas me surpreendeu um pouco, era mais tímido. Ao longo dos anos, percebi seu talento como técnico. Ele se destacou muito em seu curso em Las Rozas.”

Nos dias atuais, o Antiguoko é reconhecido como uma escola de talentos. Quem sabe, no futuro, também se tornará um centro de formação de treinadores. O futuro da equipe e do País Basco está nas mãos dos jovens que emergem das diversas camadas. No Berio, há nomes que prometem brilhar em breve. Contudo, como já destacado, se torna cada vez mais complicado reter as promessas em um clube amador:

“Bom, alguns jogadores saíram no último ano. Dois benjamins que nasceram em 2014 têm um grande potencial. Asier Briones e Julen Sarasola estão na Real Sociedad e estão apresentando uma evolução impressionante.”

Esses três exemplos dão uma ideia da intensa disputa entre a Real Sociedad e o Athletic, onde as condições em Zubieta e Lezama pesam, ainda mais do que antigamente. A tendência é que a competição aumente.

Uma das alternativas para o Antiguoko seria a ampliação das categorias, ou seja, a criação de um time sênior. Na pirâmide do futebol na Espanha, a equipe enfrenta desafios ao estar inserida em uma divisão inferior, em uma comunidade com várias divisões, o que relega o Antiguoko à Primera Regional, o terceiro escalão da federação de futebol de Guipúzcoa. Para chegar à Segunda RFEF (quarta divisão) seriam necessárias, no mínimo, quatro promoções, levando tempo.

No entanto, essa possibilidade não é descartada. É, de fato, um tema em debate e um desejo para o futuro. Montiel afirma que o clube tem interesse, mas os planos são ambiciosos:

“Sim, há anos tentamos formar essa seção. O problema é que aqui em Guipúzcoa estamos limitados por campos. Além disso, ao criar uma equipe sênior, se queremos ser bem-sucedidos, precisamos de recursos financeiros. O futebol profissional exige altos investimentos. Se decidirmos seguir adiante, será necessário planejar bem. Um dia isso pode acontecer, mas agora nosso foco está na formação dos jovens até os juvenis.”

O projeto do Antiguoko é atraente, especialmente no que tange ao futebol formativo. No entanto, o cenário sênior é visto como um processo complicado e regionalizado. Apesar das dificuldades, a conexão do clube com patrocinadores é forte, especialmente na área de formação. Atualmente, o Athletic atua como o principal parceiro, e a relação entre eles é saudável e livre de conflitos.

O Antiguoko é frequentemente destacado na mídia internacional pelos relatos de seus antigos jogadores. A instituição está voltada para o futuro, pois os atletas atualmente moldados devem começar a dar frutos em uma década. Todos os que trabalham no Antiguoko mantêm vivo o vínculo com o bairro, reconhecendo a importância da comunidade que apoia a equipe. A conexão é íntima e calorosa, algo raro em muitos locais.

Na Tamborrada, celebração tradicional da cidade, essa união é evidenciada, olhando para o futuro sem deixar de lado a tradição. Desde 1996, membros do Antiguoko desfilam pelas ruas do bairro com seus tambores. Mikel Arteta e outros já participaram dessa festa. Para a cidade, este é um dia especial, simbolizando a importância do clube na cena futebolística española.

O Antiguoko tem um futuro promissor pela frente, continuando a cultivar gerações de jogadores que aprendem não apenas sobre futebol, mas sobre a vida. Sua missão educacional é crucial, provando que existem projetos onde vencer é importante, mas onde há um propósito maior. Dentro de 10, 20 ou 30 anos, podemos testemunhar novos nomes como Mikel Arteta ou Xabi Alonso, que nunca esquecerão suas origens e honrarão suas raízes, assim como honraram suas primeiras camisetas.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *