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Você acha que faz 200 escolhas alimentares por dia? Pense novamente.
Janeiro 24, 2026

Você acha que faz 200 escolhas alimentares por dia? Pense novamente.

Números são frequentemente utilizados em mensagens de saúde para orientar comportamentos e incentivar motivações. No entanto, nem todos os números amplamente divulgados têm fundamento científico sólido. Uma afirmação específica, em particular, tem ganhado força ao longo dos anos. Ela sugere que as pessoas tomam mais de 200 decisões relacionadas à alimentação diariamente, muitas vezes sem... Read More


Números são frequentemente utilizados em mensagens de saúde para orientar comportamentos e incentivar motivações. No entanto, nem todos os números amplamente divulgados têm fundamento científico sólido. Uma afirmação específica, em particular, tem ganhado força ao longo dos anos. Ela sugere que as pessoas tomam mais de 200 decisões relacionadas à alimentação diariamente, muitas vezes sem perceber.

Conforme Maria Almudena Claassen, pós-doutoranda no Centro de Racionalidade Adaptativa do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano, essa ideia gera uma impressão enganosa. “Esse número pinta uma imagem distorcida de como as pessoas tomam decisões sobre sua ingestão alimentar e de quanto controle elas realmente têm sobre isso,” afirma.

Claassen trabalhou com Ralph Hertwig, diretor do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano, e Jutta Mata, cientista associada de pesquisa no Instituto e professora de Psicologia da Saúde na Universidade de Mannheim. Juntos, publicaram uma pesquisa mostrando como métodos de medição falhos podem alimentar suposições imprecisas sobre o comportamento alimentar.

A Origem da Afirmação das 200 Decisões Alimentares

A estimativa amplamente citada de 200 decisões alimentares diárias remonta a um estudo de 2007 conduzido pelos cientistas americanos Brian Wansink[1] e Jeffery Sobal. Nesse estudo, 154 participantes foram inicialmente questionados sobre quantas decisões tomavam diariamente em relação à alimentação e hidratação. Em média, relataram 14,4 decisões.

Depois, os participantes foram convidados a estimar quantas escolhas faziam em uma refeição típica em várias categorias, incluindo “quando,” “o que,” “quanto,” “onde,” e “com quem.” Essas estimativas foram multiplicadas pelo número de refeições, lanches e bebidas que os participantes afirmaram consumir em um dia típico. Quando os números foram somados, obteve-se uma média de 226,7 decisões por dia.

Os pesquisadores interpretaram a discrepância entre as duas estimativas, uma diferença de 212,3 decisões, como evidência de que a maioria das decisões alimentares são inconscientes ou “desatentas.”

Por Que os Pesquisadores Consideram o Número Enganoso

Claassen e seus colegas argumentam que essa conclusão não se sustenta. Eles apontam fraquezas metodológicas e conceituais no desenho do estudo e afirmam que a discrepância pode ser explicada por um viés cognitivo conhecido como efeito de subaditividade.

Esse efeito ocorre quando as pessoas fazem estimativas numéricas mais altas ao dividir uma pergunta ampla em partes menores. Em outras palavras, perguntar sobre decisões alimentares de forma fragmentada naturalmente inflaciona o total. De acordo com os pesquisadores, o grande número de supostas decisões “desatentas” reflete esse viés e não a realidade observada.

A equipe também alerta que a repetição de tais afirmações simplificadas pode moldar a forma como as pessoas veem seu próprio comportamento de maneiras prejudiciais. “Essa percepção pode minar a sensação de autoeficácia,” diz Claassen. “Mensagens simplificadas assim desviam a atenção do fato de que as pessoas são perfeitamente capazes de tomar decisões alimentares conscientes e informadas.”

Repensando Como as Decisões Alimentares São Definidas

Os pesquisadores argumentam que decisões alimentares significativas devem ser definidas em termos específicos e realistas. O que está sendo consumido? Quanto? O que é evitado? Quando a escolha acontece? E que contexto social ou emocional a envolve?

As decisões alimentares não ocorrem isoladamente. Elas estão ligadas a situações concretas, como escolher entre salada e massa ou decidir se deve ou não pular uma porção. As decisões mais importantes são aquelas que se conectam diretamente aos objetivos pessoais. Alguém que tenta emagrecer pode se concentrar em opções de jantar mais leves. Alguém que busca uma alimentação mais sustentável pode priorizar refeições à base de plantas.

A Importância de Diversas Abordagens de Pesquisa

Para compreender melhor o comportamento alimentar do dia a dia, os pesquisadores defendem o pluralismo metodológico. Isso significa utilizar uma combinação de abordagens em vez de confiar em um único método de contagem. Ferramentas sugeridas incluem observações qualitativas, acompanhamento digital, estudos de diário e pesquisas transculturais.

Ralph Hertwig enfatiza que números impactantes podem desviar a atenção do que realmente importa. “Números mágicos, como os alegados 200 decisões alimentares, não nos dizem muito sobre a psicologia das decisões alimentares, ainda mais se esses números se revelarem distorcidos,” afirma.

“Para obter uma compreensão melhor do comportamento alimentar, precisamos entender com precisão como as decisões são tomadas e quais fatores as influenciam.”

Como o Auto-Nudging Pode Apoiar Escolhas Mais Saudáveis

Compreender como as decisões alimentares funcionam na realidade pode ajudar as pessoas a desenvolver hábitos mais saudáveis. Uma estratégia prática destacada pelos pesquisadores é o auto-nudging. Essa abordagem envolve organizar o ambiente de maneira que as melhores escolhas se tornem mais fáceis de realizar.

Mudanças simples podem fazer a diferença. Manter frutas picadas à mão na geladeira ou esconder doces pode apoiar objetivos de longo prazo sem exigir força de vontade constante. O auto-nudging faz parte da abordagem de fortalecimento, que se concentra em aprimorar as habilidades de decisão pessoais, em vez de depender de sinais externos (Reijula & Hertwig, 2022).

Em Resumo

  • Por anos, a ideia de que as pessoas tomam mais de 200 decisões alimentares inconscientes por dia circulou amplamente. A figura é baseada em um estudo metodologicamente falho e oferece uma visão distorcida da tomada de decisão humana.
  • Afirmativas simplificadas como essa podem enfraquecer a autoeficácia e sugerir, erroneamente, que as escolhas alimentares estão além do controle consciente.
  • Pesquisadores do MPI defendem o pluralismo metodológico no estudo das decisões alimentares.
  • Estratégias como auto-nudging podem ajudar as pessoas a fazer escolhas informadas e saudáveis.

Nota

  1. Embora Brian Wansink tenha sido removido de sua posição acadêmica e 18 de seus artigos tenham sido retratados, o estudo discutido aqui não foi retratado. Nossa crítica se concentra não em má conduta, mas nas deficiências metodológicas e conceituais inerentes ao desenho do estudo.

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